Lamentável o caos que um mero boato foi capaz de provocar no Recife quinta-feira passada. Se "sonho que se sonha junto é realidade", o mesmo parece valer para os pesadelos. Embora o Recife não tenha perecido sob as águas de Tapacurá - cujos perigos, reais ou imaginários, já se integraram ao patrimônio mítico da cidade - o trânsito, represado pelo medo em seu tráfego descomunal, quedou tão imóvel quanto as àguas da enchente putativa - retidas, não se sabe até quando, no submundo platônico dos delírios.
Casos como este, no entanto, fazem refletir acerca de uma série de coisas, que vão desde a nossa espantosa capacidade, individual e coletiva, de criar obstáculos reais a partir de problemas meramente imaginários, até a forma francamente histérica como reagimos a uma possível catástrofe. Como não reconhecer algo de “superior” na serenidade proativa da população civil japonesa ante seus recentes e realíssimos desastres, quando posta diante da letargia que se impôs ao trânsito, no Recife, pela reação afobada de seus habitantes ante a mera paranóia? Houvesse mesmo uma pororoca "tsunâmica" prestes a varrer a cidade, a reação dos recifenses em pouco teria contribuído para minimizar seus efeitos, uma vez que só conseguiriam deixar as "áreas de risco", em tempo hábil, aqueles cidadãos que tivessem a ventura de arranjar para montaria um descendente do boi voador de Nassau. Efeitos colaterais de um individualismo do tipo "salve-se quem puder"? Da falta de prestígio do poder público? Do baixo nível cultural da massa ignara? Ou apenas uma amostra da tão conhecida (quanto pouco reconhecida, aliás) fragilidade humana? Talvez um pouco de cada coisa, quem sabe...
O fato é que nossa "Veneza" não se tornou "Atlântida", e se o Dilúvio não veio, trouxe à tona várias questões - ao menos para mim
